Meditar não significa eliminar pensamentos e esse equívoco faz com que muitos desistam.
Os benefícios da meditação têm despertado cada vez mais interesse de quem busca reduzir o estresse, lidar melhor com a ansiedade e cultivar mais presença no cotidiano.
Mas meditar não significa esvaziar a mente ou simplesmente parar de pensar. Esse é um dos equívocos mais comuns sobre a prática. A mente continuará produzindo pensamentos; em muitas técnicas, o treino consiste justamente em perceber quando a atenção se desviou e gentilmente trazê-la de volta.
Esse movimento de perceber e retornar é parte do treino.
Nas últimas décadas, a meditação também deixou de ser estudada apenas como prática contemplativa e passou a aparecer em centenas de pesquisas sobre saúde mental, estresse e bem-estar. Os resultados são interessantes, mas pedem equilíbrio: existem benefícios possíveis, sobretudo relacionados ao sofrimento psicológico, porém meditação não é uma cura universal nem substitui acompanhamento médico ou psicológico.
O que é meditação?
“Meditação” é um termo amplo que reúne diferentes práticas de treinamento da atenção e da consciência.
Algumas técnicas propõem concentrar a atenção em um objeto específico, como a respiração, um som ou um mantra. Outras trabalham uma observação mais aberta daquilo que aparece na experiência: pensamentos, emoções, sons e sensações corporais.
No Brasil, o Ministério da Saúde descreve a meditação como uma prática que utiliza técnicas para direcionar a atenção de maneira não analítica e não julgadora. Desde 2017, ela integra oficialmente a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (PNPIC).
Isso não significa que todas as formas de meditação sejam iguais ou tenham exatamente os mesmos efeitos. Diferentes métodos podem utilizar diferentes objetos de atenção e objetivos.
Entre práticas frequentemente encontradas estão:
- meditação guiada;
- atenção à respiração;
- observação das sensações corporais;
- meditação com mantra;
- práticas de atenção plena;
- meditação em movimento.
Na Surya, a meditação aparece em diferentes formatos, como práticas guiadas, meditação ativa e práticas como o Tai Chi também combinam movimento consciente, respiração e atenção, além de sessões voltadas ao relaxamento, sono ou manejo do estresse. A escolha da modalidade pode variar conforme a experiência, preferências e objetivos de cada pessoa.
Meditação e mindfulness são a mesma coisa?
Não exatamente.
Mindfulness, geralmente traduzido como atenção plena, refere-se à habilidade de prestar atenção à experiência do momento presente com uma atitude de abertura e menor julgamento, enquanto a meditação é uma das maneiras de treinar essa habilidade.
Por isso, grande parte das pesquisas científicas disponíveis estuda intervenções baseadas em mindfulness, como programas estruturados que combinam meditação, observação corporal e exercícios para levar essa atenção ao cotidiano. Essa diferença é importante porque, quando você lê que “a meditação reduz ansiedade”, muitas vezes o estudo avaliou um programa completo de mindfulness durante várias semanas — e não simplesmente cinco minutos de meditação por dia.
Benefícios da meditação: o que a ciência já descobriu
A quantidade de pesquisas cresceu bastante nos últimos anos. Ainda assim, alguns benefícios apresentam evidências mais consistentes do que outros.
Meditação pode ajudar na ansiedade?
Essa é uma das áreas com maior volume de pesquisas.
Uma revisão publicada no JAMA Internal Medicine avaliou 47 ensaios clínicos envolvendo 3.515 participantes. Os autores encontraram evidência moderada de pequenas a moderadas melhorias nos sintomas de ansiedade após programas de meditação mindfulness. Também foram observados efeitos sobre sintomas depressivos e dor.
Uma análise mais abrangente publicada posteriormente revisou 44 meta-análises de ensaios clínicos randomizados, reunindo 336 estudos e mais de 30 mil participantes. O resultado ajuda a colocar as promessas em perspectiva: intervenções baseadas em mindfulness apresentaram benefícios em várias situações quando comparadas a grupos sem intervenção ou listas de espera. Quando comparadas a tratamentos ativos, porém, os efeitos geralmente ficaram menores e nem sempre permaneceram estatisticamente significativos.
Em outras palavras, meditação pode ser uma ferramenta útil, mas os dados não sustentam a ideia de que ela seja superior a tratamentos psicológicos ou médicos comprovados.
E quando existe um transtorno de ansiedade?
Aqui também é preciso distinguir “sentir-se ansioso” de ter um diagnóstico clínico.
Uma revisão de 2023 analisou programas de mindfulness em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada. Os resultados mostraram redução importante nos sintomas quando os programas foram comparados a grupos sem intervenção específica.
No entanto, quando a comparação foi feita com tratamentos ativos, a diferença deixou de ser significativa. Além disso, apenas quatro estudos independentes participaram da análise, totalizando 334 pessoas.
Esse é um bom exemplo de como manchetes podem simplificar demais os resultados.
A meditação pode complementar cuidados para ansiedade, mas não deve ser tratada como substituta automática da psicoterapia ou de tratamentos indicados por profissionais de saúde.
Por que voltar para a respiração tantas vezes?
Imagine que você se senta para meditar e escolhe acompanhar a respiração.
Durante alguns segundos, percebe o ar entrando.
Depois começa a pensar na reunião de amanhã.
Lembra de uma mensagem que precisa responder.
Percebe que está planejando o jantar.
Então nota: “estou pensando”.
E retorna à respiração.
Esse momento não significa que a meditação deu errado. Ele é parte da prática.
Esse é um exemplo prático de meditação, onde ela acabou de repetir vinte vezes exatamente uma das habilidades que estava tentando treinar: perceber onde está a atenção e escolher para onde direcioná-la novamente. Com o tempo, a pessoa pode experimentar práticas diferentes e descobrir qual abordagem faz mais sentido para ela.
A lógica de muitas técnicas contemplativas envolve justamente reconhecer onde a atenção está e direcioná-la novamente para o objeto escolhido, sem transformar cada distração em um problema. Por isso, alguém com uma mente cheia de pensamentos não é necessariamente “ruim em meditar”.
Pesquisas envolvendo programas de mindfulness sugerem que esse tipo de treinamento pode influenciar processos relacionados à regulação da atenção e das emoções. Estudos de neuroimagem também investigam possíveis alterações funcionais e estruturais associadas à prática, embora os resultados sejam heterogêneos e não permitam afirmar que alguns minutos de meditação “reprogramam o cérebro”. A ciência nessa área ainda está evoluindo.
Benefícios da meditação para estresse e bem-estar
Os resultados tendem a ser positivos, mas novamente o tamanho do efeito importa. Uma grande meta-análise com dados individuais de participantes analisou programas de mindfulness oferecidos a adultos sem diagnóstico clínico específico. Os pesquisadores encontraram redução média do sofrimento psicológico após essas intervenções, mas também observaram bastante variação entre as pessoas.
Isso significa que duas pessoas podem fazer exatamente o mesmo programa e ter experiências diferentes. Para uma, a prática pode gerar mais calma e consciência dos próprios padrões mentais. Para outra, os efeitos podem ser discretos. Essa variabilidade faz parte da evidência — e deveria fazer parte da maneira como falamos sobre meditação.
Quanto mais tempo meditando, melhor?
Não existe um número mágico cientificamente estabelecido. Muitos dos programas mais estudados são estruturados ao longo de várias semanas e envolvem prática regular. Isso é diferente de afirmar que é necessário meditar 20, 30 ou 60 minutos todos os dias para obter qualquer benefício. Para quem está começando, sessões breves podem funcionar como uma forma de conhecer a prática e perceber como o corpo e a mente respondem.
Um estudo de revisão sobre induções breves de mindfulness em pessoas com níveis elevados de ansiedade encontrou sinais de redução momentânea da ansiedade, mas a base científica ainda era pequena e apresentava risco considerável de viés. Os próprios pesquisadores consideraram que aumentar a capacidade de atenção plena pode ser uma expectativa mais realista do que esperar grandes mudanças clínicas após uma única sessão.
Ou seja: cinco minutos podem ser um começo. Não precisam ser apresentados como uma prescrição terapêutica.
Meditação pode causar efeitos adversos?
Embora seja frequentemente apresentada como uma prática completamente inofensiva, a ciência mostra uma realidade mais complexa.
Uma revisão sistemática publicada na Acta Psychiatrica Scandinavica avaliou 83 estudos envolvendo 6.703 participantes e encontrou relatos de experiências adversas associadas à meditação. Entre elas estavam ansiedade, sintomas depressivos e alterações cognitivas. A prevalência estimada variou muito conforme o tipo de estudo analisado.
Isso não significa que meditar seja perigoso para a maioria das pessoas e sim que desconfortos podem acontecer e que práticas intensas não devem ser tratadas como universalmente benéficas.
Pessoas com histórico de trauma, crises de pânico, episódios psicóticos ou outros quadros importantes de saúde mental podem se beneficiar de conversar com um profissional qualificado antes de iniciar práticas intensivas ou retiros prolongados. Se durante a meditação houver sofrimento emocional persistente ou piora significativa dos sintomas, interromper a prática e procurar orientação profissional pode ser a escolha mais adequada.
Apesar de milhares de estudos publicados, ainda existem perguntas importantes. Os pesquisadores não sabem com precisão qual técnica funciona melhor para cada pessoa, qual frequência de prática é ideal ou quanto tempo os benefícios permanecem após a interrupção dos programas.
Outro problema é metodológico. É difícil criar um verdadeiro “placebo de meditação”. Quem participa normalmente sabe que está meditando, o que pode influenciar expectativas e respostas. Os estudos também utilizam técnicas, populações e durações muito diferentes. Isso dificulta comparar diretamente os resultados. Por isso, as melhores revisões científicas chegam a uma conclusão mais moderada do que muitas mensagens encontradas nas redes sociais: a meditação parece útil para algumas dimensões do bem-estar e do sofrimento psicológico, mas seus efeitos não são universais nem milagrosos.
Talvez você não precise aprender a “esvaziar a mente”
A meditação pode ser menos sobre conseguir silêncio e mais sobre perceber aquilo que está acontecendo.
Um pensamento aparece → Você percebe → A atenção se afasta → Você percebe.
E pode voltar. Essa relação mais consciente com pensamentos, sensações e emoções parece estar por trás de parte do interesse científico pela prática.
Para algumas pessoas, meditar pode ser uma ferramenta valiosa de autocuidado e atenção ao presente. Para outras, talvez outra prática faça mais sentido. Conhecer diferentes abordagens e contar com orientação qualificada pode ajudar a descobrir o que funciona melhor para você.
Aviso: Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde qualificados.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 849, de 27 de março de 2017. Inclui a meditação e outras práticas na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017.
FARIAS, M. et al. Adverse events in meditation practices and meditation-based therapies: a systematic review. Acta Psychiatrica Scandinavica, v. 142, n. 5, p. 374-393, 2020. DOI: 10.1111/acps.13225.
GALANTE, J. et al. Individual participant data systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials assessing adult mindfulness-based programmes for mental health promotion in non-clinical settings. Nature Mental Health, v. 1, p. 462-476, 2023. DOI: 10.1038/s44220-023-00081-5.
GOLDBERG, S. B. et al. The empirical status of mindfulness-based interventions: a systematic review of 44 meta-analyses of randomized controlled trials. Perspectives on Psychological Science, 2022.
GOYAL, M. et al. Meditation programs for psychological stress and well-being: a systematic review and meta-analysis. JAMA Internal Medicine, v. 174, n. 3, p. 357-368, 2014. DOI: 10.1001/jamainternmed.2013.13018.
WILLIAMS, M. et al. Psychological outcomes and mechanisms of mindfulness-based training for generalised anxiety disorder: a systematic review and meta-analysis. Current Psychology, 2023.
